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50 ANOS GUERRA EM ÁFRICA

50 ANOS GUERRA EM ÁFRICA

DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPUBLICA NOS 50 ANOS DA GUERRA DE AFRICA

 

 

Discurso do Presidente da República

na Cerimónia de Homenagem aos Combatentes,

por ocasião do 50º Aniversário do início da Guerra em África

 

 

    Forte do Bom Sucesso, Lisboa, 15 de Março de 2011

 

 

 

    Evocamos, hoje, o início de umconflito em que as Forças Armadas

portuguesas estiveram envolvidas, durante quase 14 anos, em África.

Fazemo-lo frente ao monumento “Aos Mortos da Guerra do Ultramar”,

numa homenagem sentida àqueles que, entre 1961 e 1974, foram

chamados a combater por Por

pela Pátria.

    Foi um esforço tamanho da Nação. Foram anos de incorporações

sucessivas, envolvendo cerca de um milhão de jovens de todas as regiões

do País que, de forma exemplar, cumpriram a sua missão por terras

africanas.

    Ao percorrer com o olhar a parede em redor do monumento, encontramos

os nomes dos cerca de 9 mil portugueses mortos em campanha nessa

guerra ainda bem presente para muitos de nós. Podemos, aí, rever nomes

de familiares ou de amigos. E recordar, quase nove séculos,

deram a sua vida para que Portugal seja hoje uma

nação livre e independente. Para lá da memória, impõe

acção na defesa de Portugal, sofreram no corpo e na a

dever cumprido. São merecedores de todo o nosso profundo respeito.

Saudamos com especial apreço, pelo muito que lhes devemos, os militares

de etnia africana que, de forma valorosa, lutaram ao nosso lado. Todos,

combatentes por Portugal!

    Hoje aqui não homenageamos uma época, um regime ou uma guerra.

Trata-se, simplesmente, de uma homenagem da Pátria àqueles que se

encontram entre os seus melhores servidores. É, aliás, de toda a justiça

distinguir a intervenção militar que permitiu que

um País com a dimensão e os recursos de Portugal pudesse manter o

controlo sobre três teatros de operações distintos, vastos e longínquos. É

internacionalmente reconhecida a forma como foi concebida a estratégia

conflito em que as Forças Armadas Portugal e se dispuseram a perder

as suas vidas também, aqueles que, ao longo de impõe-se o reconhecimento

de todos os que, pela sua alma o preço da guerra e travados os combates,

o que demonstra o esforço do País e dignifica a memória dos seus combatentes.

    Os laços e as ligações resultantes da continuada cooperação entre as forças

de Terra, Mar e Ar, nas operações em África, são um importante legado

para os dias de hoje, devendo constituir inspiração para um emprego

conjunto cada vez mais eficaz.

    Todos têm presente a importância capital do apoio e da evacuação aérea

para as operações terrestres ou, como foi o caso na Guiné-Bissau, da acção

conjunta do Exército com a Marinha e os seus fuzileiros.

 

Combatentes.

    Importa reconhecer que os soldados portugueses foram, em África,

soldados de excepção. Fizeram da distância e da saudade um desafio a

vencer, assumiram a falta de recursos como razão para a iniciativa e para a

adaptabilidade, tomaram a juventude e os seus receios, temperados pela

camaradagem e pelo patriotismo, como ingredientes para uma conduta

digna e, muitas vezes, heróica.

    É desta lembrança de uma camaradagem fortalecida em tempos difíceis de

guerra que resultam, também, os convívios que anualmente juntam, nos

lugares de Portugal, os antigos combatentes e as memórias dos que ficaram

em África.

São manifestações com uma dimensão e significado sem precedentes no

todo nacional.

     É a evocação de um período que deixou uma marca indelével numa

geração que herdou, desses tempos, uma consciência aguda das

consequências da guerra e do reconhecimento claro das prioridades da

vida.

    Foi a capacidade de sofrimento e o exemplo de coragem das mulheres de

Portugal, a quem tantos sacrifícios foram pedidos, pela ausência ou perda

dos seus, e que tudo suportaram na sua solidão e nos seus silêncios, tantas

vezes esquecidas.

    Foi o enorme desafio vencido por aqueles que, regressados de África,

tiveram que refazer as suas vidas, começando tudo de novo, fazendo apelo

ao espírito empreendedor e à capacidade de lutar que sempre os

caracterizaram. Foi toda uma rede de apoios e de afectos criada no seio

das famílias e do País, que facilitaram a sua integração no tecido laboral e

social, ultrapassando as muitas dificuldades criadas pelo ambiente instável

que se vivia.

    A guerra em África materializou, como salientei em 2010, no Dia do

Combatente, “o fim violento de um ciclo nacional, mas que deixou, nas

picadas sangrentas que trilhou, honra militar capaz de abrir o caminho a

uma cooperação fraterna e frutuosa” com aqueles países irmãos.

Temos, hoje, a oportunidade de consolidar esta cooperação num espaço de

partilha de valores, de cultura, de língua, de laços familiares e de

interesses. O desafio, agora comum, é o de lutar por um futuro melhor, de

desenvolvimento e de paz.

    Às gerações mais novas, é importante transmitir o testemunho de quem

enfrentou a adversidade ombro a ombro com aqueles a quem confiava a

vida e por quem a daria também; o testemunho de quem conhece a

relevância de valores como a solidariedade, o profissionalismo, o mérito e

a honra, a família e o País.

País que será mais bem defendido se contar com a mais-valia da vossa

experiência e da vossa participação activa, como exemplo e fonte de

motivação para os mais jovens que, tendo crescido num ambiente de maior

conforto e de paz, enfrentam o futuro num Mundo incerto, onde as crises

e o conflito não deixam de ser uma constante.

 

Combatentes,

     A vossa geração criou, também, as condições para que Portugal seja um

País democrático, mais livre, mais solidário e mais aberto ao Mundo.

Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas

essenciais ao futuro do País com a mesma coragem, o mesmo

desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos

assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.

Como Portugueses, não haverá causa maior do que dedicarmos o nosso

esforço e a nossa iniciativa ao serviço da Nação e dos combates que é

necessário continuar a vencer, para promover um futuro mais justo, mais

seguro e mais próspero para todos. Juntos, continuaremos a afirmar

Portugal.

    O meu bem-haja pela vossa presença, em nome dos Portugueses e de todos

aqueles que hoje aqui recordamos. Foi por eles, por vós e por Portugal que

aqui viemos.